ENTREVISTAS FCB | DAVID GONÇALVES – Sociedade Columbófila Paulista, Indaiatuba, São Paulo

Em 1954, com três anos de idade, ele conheceu os pombos no colo do pai. Dez anos depois montou o primeiro pombal na rua Francisco Alves, na Lapa. De lá para cá foram três pombais, seis décadas de competição e uma temporada 2025 disputada por inteiro, prova por prova.

David Gonçalves tem 75 anos, é associado da Sociedade Columbófila Paulista e mantém seu pombal em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Começou na columbofilia em 1964, aos treze anos.

SESSENTA ANOS DE POMBAL

Como o senhor chegou aos pombos-correio?

Tive contato com os pombos no colo do meu pai, aos três anos de idade, em 1954. Iniciei na columbofilia em 1964, fazendo um pequeno pombal onde morava, na rua Francisco Alves, na Lapa. Pratiquei ali até 1983, quando mudei para uma casa sem condições de abrigar os pombos.

E depois?

Em outubro de 1987 adquiri a casa onde moro até hoje e nela construí um ótimo pombal, onde competi até 2011. Naquele ano ainda construí um excelente pombal na minha chácara em Indaiatuba e comecei a competir por lá em 2012. Competi ainda em 2025, participando de todas as provas do calendário.

Qual a lembrança mais marcante dos primeiros anos?

A prova de Cuiabá para São Paulo, no começo da minha participação. O grande columbófilo Carlos Gomes dos Santos conseguiu um grande feito ali, recebendo uma fêmea alguns dias depois da solta. O desenrolar da prova foi acompanhado pelos jornais, que recebiam notícias por meio de radioamadores. Fui o primeiro columbófilo, depois do proprietário, a saber da chegada, porque era pupilo dele. Essa fêmea passou a ser chamada de Pidje, por causa de um filme americano da época que contava algo semelhante feito por uma fêmea de pombo-correio nos Estados Unidos. A distância entre Cuiabá e São Paulo é de 1.326 quilômetros em linha reta.

O TAMANHO DO PLANTEL

Quantos pombos o senhor manteve ao longo desse tempo?

Até 2011 mantinha um plantel reduzido, algo em torno de oitenta pombos entre reprodutores e aves de competição. A partir de 2012, com o pombal maior, aumentei bastante e cheguei a quase quatrocentos. Assistir à chegada de uma prova onde enviei trezentos pombos é realmente um espetáculo maravilhoso.

Plantel grande é condição para competir bem?

Não. Para competir em alto nível não é necessário um plantel maior que setenta pombos. Tivemos um grande campeão em São Paulo capital que nunca teve mais do que setenta, entre reprodutores e aves de competição. O grande campeão José Luiz Azevedo, diversas vezes campeão paulistano na época de ouro daquele campeonato.

MANEJO

Como é a condução da equipe em período de competição?

Depois da muda e durante as competições temos que ser bastante severos com a equipe, fazendo com que obedeçam rigorosamente aos comandos do columbófilo. Devem se exercitar diariamente pelo período determinado pelo treinador e, quando chamados para entrar, obedecer rapidamente, sob pena de ficarem sem comer um único grão até o dia seguinte.

E a alimentação?

A mistura deve ser composta por diversos tipos de grãos: milho, aveia, sorgo, ervilha, lentilha, grão de bico, amendoim, linhaça, trigo, arroz integral e nabão. A composição deve ser de setenta por cento de cereais e trinta por cento de oleaginosas.

Como controlar a quantidade?

Depois que entram do treinamento diário, sirvo em cocho comunitário um pouco da mistura e vou adicionando mais um pouco de cada vez, até que alguns poucos pombos saiam do cocho. Aí nada mais é servido. Assim evitamos que alguns engordem e prejudiquem gravemente a equipe.

E a água?

Água da melhor qualidade, com vitaminas, vinagre de maçã e alguns outros suplementos. Separadamente, claro.

Existe um preparo específico para as provas longas?

Nas provas longas usamos o sistema de altos e baixos. Depois de uma prova longa, adiciono cinquenta por cento de cevada aos grãos servidos, até faltarem cinco dias para o embarque da prova seguinte. Desse jeito a forma dos pombos baixa, eles relaxam um pouco e retomam a forma já dentro dos cestos de viagem. Nenhum pombo consegue manter a forma ininterruptamente.

O VENTO E A DISTÂNCIA ENTRE POMBAIS

O senhor aponta um problema estrutural da modalidade.

A columbofilia padece de um mal que é a distância entre pombais, algo que não tem solução, porque os ventos determinam as regiões favorecidas em cada prova. Quanto mais curta a prova, maior a influência do vento. Essa influência diminui conforme aumenta a distância percorrida, e cai bastante depois dos seiscentos quilômetros, tornando a competição mais justa. O que realmente elimina o problema é a competição em columbódromos, onde todos enviam seus pombos para um único pombal. Só que aí ficamos privados do prazer de tratar dos nossos pombos.

OS MELHORES RESULTADOS

Quais o senhor guarda com mais orgulho?

Lembro de uma prova de seiscentos quilômetros em que coloquei seis pombos entre os dez primeiros. Lembro também das duas vitórias na prova de Brasília para São Paulo capital, em anos consecutivos, recebendo a mesma fêmea praticamente no mesmo horário da prova anterior.

E a mais inesquecível?

A prova de Colatina, no Espírito Santo, para Indaiatuba, com 736 quilômetros em linha reta. Nenhum pombo havia chegado no mesmo dia. Na manhã de domingo levantei às cinco horas e, ainda no escuro, chegou uma fêmea às cinco e vinte, vencendo a prova. Outros cinco pombos meus se classificaram até a décima colocação.

AS DIFICULDADES DE HOJE

Qual a maior dificuldade do columbófilo brasileiro?

A dificuldade de instalar um pombal nas grandes cidades, por causa do pouco espaço, e a vida moderna, que afastou as pessoas do convívio com pequenos animais. As grandes cidades não oferecem as condições necessárias para a prática. Nas cidades pequenas isso não acontece, e muita gente consegue instalar pombais e competir com ótimos resultados.

Há caminho para quem mora onde não dá para criar?

A participação em columbódromos é bastante interessante. Permite ao interessado criar alguns filhotes, ou adquiri-los de outro criador, e inscrever essas aves em columbódromos instalados em diversos estados do Brasil. Elimina os problemas que citei.

O CONSELHO A QUEM ESTÁ COMEÇANDO

Por onde começar?

Adquira alguns filhotes de um columbófilo que consegue bons resultados na especialidade em que pretende competir. Também pode adquirir desse mesmo columbófilo ovos de bons casais e colocá-los sob amas secas, que serão descartadas depois. Nunca aceite pombos descartados por não produzirem resultado. Não se iluda: maus pombos só reproduzem maus pombos.

E o pombal?

Construa um pombal ensolarado e arejado, sem correntes de ar. Não superlote. Preconizo dez pombos por metro linear de frente do pombal. Será ótimo se houver na frente um solário para cada sexo. Os pombos, incrivelmente, deitam ao sol mais forte do dia e abrem as asas para receber a insolação.

Que outros cuidados o senhor recomenda?

Banho semanal em banheira, para imersão das aves, com água e algumas gotas de azul de metileno. Pouca comida, porque nenhum indivíduo obeso tem resultado positivo em competição de atletas. Nunca deixar faltar grit, para o bom funcionamento do sistema digestivo. E nunca acender as luzes do pombal: pombo precisa descansar.

E quanto à seleção?

Só reproduza com aves que apresentaram bons resultados. Guarde sempre alguns pombos que se destacaram nas competições que lhe agradam.

“Um pombal que obtém bons resultados é dirigido como um quartel, não como um hospital.”

A série Entrevistas FCB é uma iniciativa do Departamento de Comunicação da Federação Columbófila Brasileira e está aberta a todos os sócios, de qualquer clube filiado, sem distinção de tempo de casa ou de resultados em prova. Quem quiser contar a sua história pode acessar o FCB Controle e clicar em “Quero contar a minha história”, ou procurar a diretoria do seu clube.

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